Ao olhar para a década de 1950, é comum imaginar uma época engessada por dogmatismos rígidos e um alinhamento automático contra o avanço das ciências modernas. Contudo, ao folhear os amarelados fascículos de 1957 da revista Pergunte e Responderemos, fundada e redigida pelo monge beneditino Dom Estêvão Bettencourt, OSB, nos deparamos com um cenário intelectual completamente diferente e fascinante.
Nessa publicação teológico-filosófica, questões candentes da época — que iam da física nuclear e da psicanálise soviética à exegese bíblica — eram debatidas com notável lucidez, objetividade e profundidade racional. O pensamento teológico clássico revelava respostas surpreendentemente modernas, elegantes e contraintuitivas para os dilemas da sociedade, provando que o diálogo entre fé e razão sempre foi muito mais rico do que supõe o senso comum.
1. O Papa, o Parto Sem Dor e os Médicos Soviéticos: A Ciência Acima da Ideologia
Na década de 1950, a medicina avançava na aplicação do “método psicoprofilático” de parto sem dor, desenvolvido por médicos russos e soviéticos com base nos trabalhos sobre reflexos condicionados de Pavlov. A novidade gerou forte hesitação entre os católicos. Afinal, a preparação psicológica ou o uso de recursos médicos para eliminar a dor no parto não estariam burlando a sentença divina de Gênesis 3,16 (“darás à luz com dor”)? Para complicar, o método vinha acompanhado da propaganda ideológica do regime comunista ateu.
A posição de Roma, contudo, surpreendeu os observadores da época. Em duas alocuções célebres (1949 e 1956), o Papa Pio XII aprovou abertamente o uso do método psicoprofilático. Na alocução de 29 de setembro de 1949, dirigida aos médicos católicos, o Pontífice estabeleceu com clareza os dois únicos critérios morais exigidos pela Igreja: o método não pode constituir um atentado à vida ou à saúde da mãe e do filho, nem deve recorrer a processos de hipnotização ou anestesia que diminuam o amor e os sentimentos de ternura da mãe para com o recém-nascido.
“Como ginecologista, o médico se esforça por diminuir as dores do parto, sem contudo pôr em perigo a saúde da mãe ou da criança e sem se expor a mudar os sentimentos de ternura materna para com o recém-nascido.”
Já em 8 de janeiro de 1956, Pio XII reforçou que o castigo de Gênesis 3,16 não proibia a humanidade de utilizar as riquezas da criação para suavizar o sofrimento — assim como a punição do trabalho penoso imposta a Adão jamais vedou o uso de máquinas no campo. Mais do que isso, o Papa definiu um princípio epistemológico brilhante: a verdade de uma descoberta científica empírica independe da ideologia filosófica de quem a descobriu. A eficácia do método soviético era julgada por critérios de laboratório, e não pelo materialismo de seus autores — da mesma forma que aceitar o Teorema de Pitágoras não nos vincula ao paganismo grego, nem aplicar as leis de Mendel exige a adesão ao cristianismo.
Apesar da aprovação moral pontifícia, a revista de 1957 manteve o rigor analítico ao citar o relatório do Dr. Rodrigues Lima na I Conferência Brasileira sobre o Parto Sem Dor (julho de 1956). O estudo revelou que o método psicoprofilático suprimia a dor em apenas 25% das parturientes, demonstrando que a dor cumpre uma função biológica valiosa de alerta, embora a parcela do sofrimento decorrente de preconceitos possa e deva ser removida pela psicoterapia.
2. Jonas e a Baleia: História Real ou Uma Parábola Contra o Nacionalismo?
A imagem de um homem sobrevivendo por três dias no ventre de um grande peixe é um dos relatos bíblicos mais populares, situando-se frequentemente entre a aceitação ingênua do milagre e o deboche racionalista. Embora a Onipotência Divina possa perfeitamente realizar um prodígio físico extraordinário, a exegese católica apresentada por Dom Estêvão Bettencourt demonstra que a narrativa não exige uma leitura cronística literal, pois há uma evidente desproporção entre uma sequência de grandes milagres e o objetivo simples da conversão de Nínive.
Segundo a fonte teológica, o autor do livro criou essa obra no período pós-exílico (século VI a.C.) para censurar duramente o particularismo e o nacionalismo religioso judaico de sua época, reafirmando que Deus deseja a salvação universal de todos os povos. Trata-se, portanto, de uma estratégia pedagógica em que a figura de Jonas encarna a mentalidade fechada daqueles que pretendiam restringir o favor divino exclusivamente a Israel.
“Bons exegetas modernos julgam que a história de Jonas é uma parábola, ou seja, narrativa fictícia imaginada a fim de incutir uma lição religiosa ou moral…”
3. Física Moderna vs. Filosofia Clássica: A Matéria Convertida em Energia Anula as Provas da Existência de Deus?
Com a consolidação da Física Moderna e da famosa equação da relatividade (E=mc^2), demonstrando que a massa é conversível em energia, surgiu a objeção de que a Primeira Via de São Tomás de Aquino (a demonstração da existência de Deus pelo movimento ou “Movente Absoluto”) estaria superada. A resposta metafísica fornecida na revista desfaz essa dúvida ao distinguir os conceitos e mostrar como a ciência confirma a filosofia clássica:
- A distinção entre movimento filosófico e energia física: Enquanto a física define energia a partir de seus efeitos observáveis, a filosofia entende por “movimento” qualquer passagem da potência ao ato (seja uma mudança local, quantitativa ou qualitativa). A mudança supõe sempre uma imperfeição no ser que se transforma.
- A contingência da matéria: A física moderna ensina que a massa é indiferente ao repouso ou ao movimento. A transformação da massa em energia (ou de uma forma de energia em outra) exige a ação determinante de um agente extrínseco. Sendo contingente, essa transformação não se explica por si mesma, demandando uma Primeira Causa Eficiente.
- A entropia e o início temporal do cosmos: Em célebre discurso à Academia Pontifícia de Ciências (22/11/1951), Pio XII destacou que a ciência moderna (do microcosmo atômico ao macrocosmo dos astros) comprova que o universo é dinâmico e caminha rumo ao equilíbrio térmico ou entropia. Se o cosmos possui uma tendência irreversível a um fim, significa que teve um início temporal (estimado pela ciência da época em cerca de 5 bilhões de anos), o que aponta para um Movente Absoluto Criador.
4. O Segredo de Sansão: Por Que a Força Não Estava nos Fios de Cabelo
A história bíblica do juiz Sansão frequentemente recebe uma leitura ingênua ou folclórica, como se seus longos cabelos contivessem uma propriedade física ou mágica dotada de superforça.
Na verdade, a cabeleira era o símbolo visível do seu voto de nazireato — uma instituição israelita de especial consagração e fidelidade a Deus. A força extraordinária do guerreiro não residia na matéria dos fios de cabelo, mas na assistência e proteção divinas concedidas enquanto ele mantinha seu compromisso sagrado. Ao ceder à paixão e revelar seu segredo, Sansão violou o voto de fidelidade ao Criador, tornando-se vulnerável como qualquer outro homem pela perda da graça e da proteção divina.
5. “Todas as Religiões São Boas?”: A Distinção Vital Entre Boa Fé Subjetiva e Verdade Objetiva
Diante do pluralismo cultural, o dito popular de que “todas as religiões são iguais” é submetido na revista a um rigoroso exame teológico, fundamentado em uma dupla distinção essencial:
- O Aspecto Subjetivo (A boa fé): Um indivíduo pertencente ao islamismo, budismo ou protestantismo que aja com absoluta boa fé — sinceramente convicto de estar na religião verdadeira e cumprindo os ditames da sua consciência — pode salvar-se. Sua atitude moral é valorizada pela intenção reta de seguir o dever.
- O Aspecto Objetivo (A Verdade): A inteligência humana é feita para apreender a verdade e não pode acomodar-se voluntariamente no erro ou na dúvida. A verdade possui o primado sobre o Amor e a Moral (assim como “dois e dois só podem dar quatro”). Se surgem dúvidas fundadas sobre a autenticidade do credo que professa, a própria dignidade da razão obriga o indivíduo a buscar a verdade objetiva.
“O ideal do homem é agir não somente de boa fé (aderindo sinceramente a uma ideologia qualquer), mas também segundo a verdadeira fé (aderindo sinceramente a uma ideologia verídica ou à Verdade).”
Conclusão: Razão, Fé e a Busca Incessante pela Verdade
Os registros da revista Pergunte e Responderemos de 1957 revelam uma atitude intelectual de rigor admirável: uma fé que não teme a ciência, uma razão que não se reduz ao cientificismo e um diálogo fundamentado na busca pela verdade objetiva. Em vez de recorrer a dogmatismos ingênuos ou ceder ao relativismo absoluto, o pensamento clássico demonstra que a reflexão profunda e o estudo honesto são as melhores ferramentas para dissipar preconceitos e iluminar os grandes mistérios da existência humana.
Diante do ritmo acelerado de informações e simplificações do mundo contemporâneo, será que ainda preservamos a disposição de investigar a essência das coisas por trás das superficialidades culturais do nosso tempo?


